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Financeiro · Precificação

Açaí no Delivery: A Conta Que o iFood Não Faz por Você

Cliffon Financeiro · Precificação 8 min
Calculadora e caderno com conta de precificação de açaí no delivery iFood

A tigela que você vende por R$22 na loja pode te dar prejuízo no iFood com o mesmo preço. O Plano Entrega do aplicativo cobra 23% de comissão por pedido — mais 3,2% de taxa de pagamento online. Antes de calcular quantas tigelas você precisa vender por dia pra não ter prejuízo, você precisa entender que loja e delivery são duas contas diferentes. Se não recalcular o preço do delivery, você está pagando pra trabalhar pra plataforma.

Por que o preço da loja mata a margem no delivery

No Hamburgão, hamburgueria que toquei em Águas Vermelhas/MG por 5 anos, demorei quase 8 meses pra entender que tinha dois negócios rodando ao mesmo tempo: o balcão e o delivery. Mesmo produto, mesma receita — custo completamente diferente. No balcão, eu controlava tudo. No delivery, tinha um terceiro pegando uma fatia antes de eu ver o dinheiro.

A conta é direta. Imagine uma tigela 500ml com custo de R$7,50 pra produzir (polpa 150g + toppings + embalagem simples) que você vende por R$22 na loja:

CustoNa lojaNo iFood (Plano Entrega)
CMV (produção)R$7,50R$7,50
Embalagem delivery (caixinha)R$1,50
Comissão iFood (23%)R$5,06
Taxa pagamento online (3,2%)R$0,44R$0,70
Impostos Simples (~4,5%)R$0,99R$0,99
Total custos diretosR$8,93R$15,75
Sobra pra fixo + lucroR$13,07R$6,25

Mesmo prato. Mesmo preço. Mas no delivery você tem R$6,82 a menos pra cobrir aluguel, energia e funcionários por pedido.

Se você tem R$5.500/mês de custo fixo e faz 300 pedidos no mês — sendo 100 deles pelo app — cada pedido de delivery precisa contribuir com pelo menos R$18,33 só pra cobrir o fixo rateado. Com R$6,25 de sobra no Plano Entrega, você está operando no negativo em cada pedido de delivery sem saber. Cilada silenciosa.

E o pior: o caixa da semana parece bom porque a loja está cheia. Você não percebe o rombo do delivery até ver o extrato no fim do mês.

A fórmula: preço de delivery em 4 passos

O Sebrae ensina a fórmula de markup assim:

Preço = Custo total / (1 − despesas variáveis % − margem de lucro %)

Pra delivery no Plano Entrega, as despesas variáveis são:

  • Comissão iFood: 23%
  • Taxa pagamento online: 3,2%
  • Impostos Simples ME (~4,5% — consulte seu contador, a alíquota varia conforme a faixa de faturamento do Simples Nacional)
  • Total: ~30,7% do preço de venda vai embora antes de você ver o dinheiro

Rolou que fiz essa conta pra um amigo que toca açaiteria em MG e ficamos os dois em silêncio por uns 30 segundos. Era tipo: “você sabia que 30% de cada pedido já vai embora antes de você pagar aluguel?”

Aplicando pra tigela 500ml:

Passo 1 — Custo por tigela (delivery):

  • CMV: R$7,50
  • Embalagem delivery: R$1,50
  • Total CMV delivery: R$9,00

Passo 2 — Rateio de custo fixo no delivery:

  • Custo fixo total: R$5.500/mês
  • Pedidos total: 300/mês (sendo 100 delivery = 33%)
  • Fixo rateado delivery: R$5.500 × 33% / 100 pedidos = R$18,15/pedido

Ops — isso significa que cada pedido delivery precisa gerar R$18,15 só pra cobrir o fixo da operação. Mais o CMV de R$9,00. Mais a margem de lucro.

Passo 3 — Preço mínimo sem lucro:

  • Custo total: R$9,00 + R$18,15 = R$27,15
  • Preço mínimo = R$27,15 / (1 − 0,307) = R$39,18

Mas espera — R$39 por uma tigela 500ml é alto. O que esse número está dizendo é que com 100 pedidos de delivery num mês de R$5.500 de custo fixo, você precisa de preço alto ou de muito mais volume de delivery.

Passo 4 — O que ajustar:

  • Ou aumenta o preço (R$26–28 pra tigela 500ml já faz mais sentido do que R$22)
  • Ou aumenta o volume de pedidos delivery pra diluir o fixo
  • Ou reduz o custo fixo (nem sempre possível)
  • Ou cria cardápio delivery enxuto com itens de maior margem

Plano Básico vs Plano Entrega: qual faz sentido pra açaiteria

O iFood tem dois planos principais pra parceiros:

Plano Básico (você faz a entrega com motoboy próprio):

  • Comissão: 12% por pedido
  • Taxa pagamento online: 3,2%
  • Mensalidade: R$110 quando faturamento delivery supera R$1.800/mês

Plano Entrega (iFood manda o motoboy):

  • Comissão: 23% por pedido
  • Taxa pagamento online: 3,2%
  • Mensalidade: R$110 nas mesmas condições

A diferença de 11 pontos percentuais é real. Mas não é só ela.

No Plano Básico você paga menos comissão, mas precisa ter entregador disponível. Motoboy avulso em cidade pequena cobra R$6–10 por entrega. Com 50 pedidos/mês, isso é R$300–500 extra que não aparece na comissão do iFood, mas sai do bolso do mesmo jeito.

Vi muito dono migrando pro Básico achando que ia economizar, sem ajustar o preço nem incluir o custo do motoboy na conta. Corta 11% do iFood, bota R$7 de motoboy pra fora — na melhor das hipóteses empata, na pior sai mais caro. Não cola.

A regra prática: se você tem motoboy próprio fixo e volume acima de 60 pedidos delivery/mês, o Básico compensa. Abaixo disso ou sem entregador próprio, o Plano Entrega é mais simples — só garanta que o preço está calibrado pra 26,2% de encargo de canal (23% + 3,2%).

E se tiver em dúvida entre depender só do iFood ou montar seu próprio canal, vale ler iFood vs delivery próprio na açaiteria antes de tomar qualquer decisão.

Quando o delivery é canal inteligente (e quando te quebra)

A Abrasel documentou que o preço médio no iFood é 17,5% mais caro do que no restaurante físico. O mercado já aceita pagar mais no delivery. Se você cobra o mesmo preço da loja, está deixando margem na mesa — e ainda perdendo dinheiro nos custos de canal.

O delivery é inteligente quando:

  • Você precificou com o custo do canal embutido (fórmula acima, não improviso)
  • Você usa o iFood pra aquisição de cliente novo e canaliza o recorrente pro WhatsApp (zero comissão)
  • Seu CMV está controlado com ficha técnica real — sem saber o custo exato de produção, qualquer conta de precificação é chute

O delivery te quebra quando:

  • Preço igual à loja (perda garantida no Plano Entrega)
  • Volume baixo que não dilui a mensalidade R$110
  • Embalagem delivery improvisada — açaí derretido vira avaliação 1 estrela vira pedido cancelado
  • Cardápio completo no app (os itens de menor margem puxam a média pra baixo)

Um amigo que foi meu primeiro cliente externo no Cliffon passou 4 meses reclamando que o delivery não rendia. Sentamos pra olhar os números numa tarde de segunda. Era simples: 47 pedidos/mês, R$19 por tigela no app (mesmo preço da loja), Plano Entrega. Cada pedido gerava R$1,80 de margem de contribuição. Só que a embalagem isotérmica que ele usava pra não derreter o açaí custava R$1,50. Sobrava R$0,30 por pedido pra cobrir aluguel, energia e funcionário.

Deu ruim. Mas foi reversível: ajustamos o preço pra R$24 nas tigelas maiores, R$21 nas menores, cortamos 3 itens do cardápio delivery que tinham margens ridículas. No mês seguinte, com menos 8 pedidos (alguns clientes reagiram ao preço), ele teve R$280 a mais de margem real. Menos pedido, mais dinheiro no caixa.

FAQ

Posso usar o mesmo preço da loja no iFood?

Não, se você usa o Plano Entrega (23% de comissão). Com o mesmo preço você vai operar com margem comprimida ou negativa na maioria dos pedidos. O Plano Básico tem folga maior (12%), mas o custo do motoboy próprio come parte disso. Precifique delivery separado da loja — é outro canal com outros custos.

Como calcular o markup pro delivery na prática?

Pegue: CMV + embalagem delivery + rateio de custo fixo = custo total por pedido. Divida por (1 − comissão iFood − taxa pagamento − imposto − margem alvo). Para entender quando e como ajustar o preço depois que ele estiver rodando, veja como reajustar o preço do açaí sem perder cliente.

Plano Básico ou Plano Entrega: qual escolher?

Depende do seu volume e da logística. Sem motoboy próprio ou abaixo de 50 pedidos/mês: Plano Entrega. Com entregador fixo e volume maior: Básico costuma compensar. Em qualquer cenário, calcule o preço incluindo o custo real do canal antes de ativar o cardápio.

Quanto de margem líquida sobra depois do iFood?

Com a tigela de R$22 no Plano Entrega, sobram ~R$6,25 pra cobrir custo fixo e gerar lucro (vs R$13,07 na loja). Se o custo fixo rateado por pedido delivery for acima de R$5,50 — o que é comum em açaiterias com aluguel e dois funcionários — você opera no zero ou no negativo a cada pedido.


Por que escrevemos sobre isso

O amigo que virou meu primeiro cliente externo no Cliffon me ligou reclamando que o delivery “não fechava conta”. Fui visitar numa tarde de sábado — loja boa, açaiteria movimentada, 40-50 pedidos de delivery por mês registrados no app. “Não tô tendo prejuízo, mas também não tô vendo dinheiro do delivery,” ele disse.

Puxei os números com ele ali, caderno na mesa. O preço de entrega era igual ao da loja. Plano Entrega ativo. A embalagem isotérmica que ele usava (porque açaí derretido é reclamação garantida) custava R$1,80. Em cada pedido ele contribuía com R$2,10 de margem bruta antes de tocar no custo fixo. Praticamente doava o trabalho operacional pra ter estrelinhas no app.

Ajustamos o preço numa tarde. No mês seguinte, com volume menor e preço certo, o delivery começou a gerar caixa de verdade.

O iFood não vai te ensinar a precificar. Ele vai te mostrar o relatório de pedidos e o repasse. A conta de custo real — com comissão, embalagem, fixo rateado, imposto — é sua pra fazer. Esse post existe pra você não precisar de uma tarde de susto pra descobrir isso.

— Regys, fundador do Cliffon

Fontes citadas