Cliffon
Crescimento · Delivery (iFood, 99Food)

Você Não Está Preso no iFood. Você Só Acha Que Está.

Cliffon Crescimento · Delivery (iFood, 99Food) 7 min
Fundo roxo e laranja com texto 'Multi-Canal Delivery Açaiteria' — representando estratégia de múltiplos canais de venda

Em março de 2025, o CADE — o órgão antitruste brasileiro — assinou um acordo com o iFood que desfez a maioria dos contratos de exclusividade da plataforma. A partir dali, o iFood não pode mais forçar sua açaiteria a vender só por ele. Acabou.

Mas se você perguntar pra dez donos de açaiteria hoje se podem estar em outros canais de delivery ao mesmo tempo, nove vão dizer que não. Alguns acham que o contrato ainda proíbe. Outros têm medo de cair no ranking. A maioria simplesmente nunca parou pra questionar.

Você não está preso. Você só nunca tentou sair.


O Acordo que Ninguém Contou pra Você

Em fevereiro de 2023, o CADE abriu processo administrativo contra o iFood por abuso de posição dominante. A plataforma controlava cerca de 80% do mercado de delivery de comida no Brasil — e usava contratos de exclusividade que impediam açaiterias e restaurantes de aparecer no Rappi, 99Food ou qualquer outro concorrente ao mesmo tempo.

O Termo de Compromisso de Cessação (TCC) saiu em 2025. O acordo determinou três coisas concretas:

  • iFood não pode celebrar novos contratos de exclusividade com restaurantes parceiros (CADE, gov.br);
  • O limite máximo de parceiros com cláusula de exclusividade caiu pra 25% da base total — e só 8% em municípios com mais de 500 mil habitantes;
  • Contratos em vigor têm prazo máximo de 2 anos, seguido de 1 ano de quarentena onde não podem ser renovados com exclusividade.

A Abrasel confirmou que os contratos começaram a encerrar ainda em 2023. Em 2026, a esmagadora maioria já expirou.

Só que isso não saiu no jornal que dono de açaiteria lê. Virou nota técnica jurídica no site do CADE — que ninguém vai checar às 22h quando tá contando pedido do dia.

Vi muito dono de açaiteria recusando cadastro na 99Food com medo de “quebrar contrato” — sendo que esse contrato tinha acabado meses antes. Não é culpa de ninguém. É que ninguém traduz esse tipo de coisa pra linguagem de quem vende copo de açaí no bairro.

Você não está preso. Nunca mais esteve, faz tempo.


Quanto Custa Dormir no Mono-Canal

Quase quebrei no Hamburgão em 2022 exatamente porque fiquei dependente de uma variável que eu não controlava — o preço do insumo. Quando subiu, não vi a tempo. Não era entrega, era custo. Mas a lógica é a mesma: depender de um único ponto de falha é cilada.

No caso do delivery, o mono-canal tem custo visível e custo invisível.

O custo visível: iFood Plano Entrega cobra ~23% de comissão por pedido. Mais taxa de transação do cartão (~3,5%). Na prática, você entrega de 26 a 30% de cada venda pra plataforma. Já mostrei aqui o detalhamento da conta exata de precificação pra delivery — a tigela de R$22 que dá R$13 de margem no balcão pode virar R$6 no iFood se você não recalcular o preço.

O custo invisível é mais pesado: o iFood não te dá o contato do seu cliente. Você sabe que vendeu 200 copos esse mês. Não sabe quem comprou, com que frequência, nem como falar com essas pessoas diretamente.

Isso é dado. Dado é ativo. E você está entregando de graça, todo mês, pra sempre.

Segundo pesquisa da Abrasel, o WhatsApp já representa 26% do faturamento de delivery em bares e restaurantes brasileiros. Canal direto. Sem comissão. Com nome e número salvos. Com histórico de pedido que você controla.

Só que aí: o dono que tá só no iFood não captura nenhum desse 26%. Deixa na mesa todo mês.


Como Montar Três Canais Sem Contratar Mais Ninguém

O modelo que funciona pra açaiteria de bairro solo tem três camadas. Não precisa de sistema caro. Não precisa de equipe extra. Precisa de processo.

Canal 1 — iFood: vitrine, aquisição de cliente novo

Continua lá. O iFood traz cliente que nunca te viu — esse é o trabalho dele. Aceita, usa, mas muda o enquadramento: iFood não é pro lucro máximo, é pra descoberta. Precifique considerando a comissão. Não coloque o mesmo preço da loja física.

E não tenha medo do ranking. O algoritmo não pune você por existir em outros canais. Pune por avaliação baixa e tempo de preparo alto. Isso está no seu controle.

Canal 2 — WhatsApp Business: recompra, fidelidade, margem real

O iFood não libera o contato do cliente — é a vantagem competitiva deles. Mas você pode trabalhar a transição com quem já te conhece.

No PDV físico, coloca QR pra WhatsApp na mesa e no caixa. Na sacola de entrega do iFood, inclui papel simples: “Pedido direto no WhatsApp: cria o seu combo e frete sai mais em conta.” Nada de oferta agressiva — só facilidade. O cliente racional vai pelo custo.

Montei o modelo completo de delivery noturno por WhatsApp aqui — motoboy avulso, catálogo Business configurado, processo de 15 minutos de setup.

Canal 3 — cardápio digital próprio

Se você usa um sistema de gestão que já tem cardápio digital com link próprio (como o Cliffon), esse link vira canal sem custo adicional. Compartilha no Instagram, no status do WhatsApp, no Google Meu Negócio. Pedido entra diretamente no sistema. Zero comissão.

O objetivo não é sair do iFood. É não depender só dele.


iFood Não É Inimigo. Mas Você Não Pode Ser Refém.

Preciso ser direto aqui porque já vi dono indo pro extremo oposto: “vou sair do iFood e ficar só no WhatsApp.” Isso não cola.

iFood tem 80% do mercado de delivery de comida no Brasil. Sair é desaparecer da vitrine mais movimentada do país. Não é estratégia — é suicídio de canal.

O ponto é diferente: mono-canal de qualquer tipo é risco. Seja só iFood, seja só WhatsApp, seja só balcão. Negócio saudável tem pelo menos dois canais que se reforçam e distribuem risco. Quando um cai, o outro sustenta.

A decisão do CADE devolveu pra você o poder de diversificar. O acordo com o iFood permitiu inclusive que você cobre preços diferentes por canal — desde que o iFood aprove no plano específico (verifique com o suporte). Significa: preço cheio no iFood cobrindo a comissão, preço direto no WhatsApp sem ela. Mesmo produto, margem diferente por canal. Isso é estratégia.

A nota técnica do CADE não veio com tutorial pra dono de açaiteria. Veio em linguagem jurídica que ninguém lê às 22h com o caixa aberto.

Mas agora você leu. O que você faz com isso é conta sua.


FAQ

Se eu usar WhatsApp e 99Food ao mesmo tempo que o iFood, posso ser punido?

Não — desde que você não tenha um contrato de exclusividade ainda em vigor. Pelo TCC assinado com o CADE, contratos têm prazo máximo de 2 anos + 1 ano de quarentena. A maioria dos contratos assinados antes de março de 2023 já expirou. Se você tem dúvida sobre o seu contrato específico, leia o documento que assinou e consulte um advogado. Mas pela grande maioria dos parceiros iFood, a exclusividade acabou.

Como migrar cliente do iFood pro WhatsApp sem perder relação?

Incentivo concreto, não pedido. Não funciona “nos chame no zap” — isso não tem gatilho. Funciona: “Pedido direto, frete R$2 mais barato” ou “Monte seu combo no WhatsApp e ganha topping extra.” O cliente vai pelo benefício real. Consulte o post sobre delivery noturno pra ver o modelo de transição detalhado.

O 99Food vale a pena pra açaiteria de bairro?

Depende da cobertura na sua cidade. 99Food tem presença forte em municípios do interior e regiões onde o iFood tem menos motoristas disponíveis. Pesquisa se tem cobertura ativa antes de cadastrar. O custo pra testar é zero — o risco é o tempo de manutenção do cardápio. Se você usa um sistema com cardápio centralizado, a manutenção paralela é mínima e o teste vale a pena por 30 dias.

Devo ter preço diferente no iFood e no WhatsApp?

Sim — e você pode, desde que o plano do iFood permita. A lógica é simples: no iFood, o preço já embute a comissão de 23-30%. No WhatsApp, você recebe integral. Cobrar o mesmo em ambos os canais significa ou perder margem no iFood ou cobrar caro demais no WhatsApp. Consulte o detalhamento da precificação por canal pra montar sua planilha.


Por Que Escrevi Sobre Isso

Rodei o Hamburgão em Águas Vermelhas/MG de 2019 a 2024. No começo, nem me cadastrei no iFood — tinha medo de perder margem. Quando finalmente entrei, fiquei lá anos sem questionar. Não sabia que podia estar em outros canais ao mesmo tempo. Não porque era proibido. Porque nunca fui atrás de saber.

Quando o CADE abriu processo contra o iFood em 2023 e assinou o acordo em 2025, foi notícia que circulou em portal jurídico e nota técnica. Não chegou em formato que dono de açaiteria de bairro lê. Resultado: a maioria seguiu acreditando que estava preso por contrato, quando o contrato já tinha expirado.

No Cliffon, trabalho com donos de açaiteria que tomam decisão com base em informação incompleta todo dia — e essa aqui é uma das piores porque tem custo invisível real e tem solução simples. Multi-canal não é complexidade. É uma porta a mais aberta. O CADE já fez a parte dele. Agora é a sua vez.


Disclaimer: As informações sobre o TCC iFood-CADE são de caráter geral e informativo. Cada contrato tem suas cláusulas específicas. Em caso de dúvida jurídica sobre seu contrato, consulte um advogado.

Fontes citadas